Nos anos 1990, a voz gutural do MC, acompanhada de bases musicais sombrias parecidas a trilhas sonoras de filmes de suspense, revelaram o cotidiano violento de jovens que se matavam, a caminho do autoextermínio, protagonizando carreiras criminais ou sendo vítimas da violência policial.
Nesse período, tempos em que São Paulo alcançava taxas escandalosas de 53 homicídios por 100 mil habitantes, ter atitude era odiar. Sobrava inspiração para cantar e denunciar “a realidade”, cabendo aos rappers, na definição deles próprios, o papel de “CNN da periferia” (mais correto seria Al-Jazeera).
Na década que se seguiu, ao mesmo tempo que São Paulo e as periferias viviam processos de mudanças radicais, os Racionais de Mano Brown pareciam ter perdido o discurso. Os homicídios, que dizimaram parte da geração de Brown, hoje com 42 anos, despencaram 80%. Também aumentou o consumo de drogas e foi criada a mística em torno do Primeiro Comando da Capital (PCC), que organizou a distribuição de drogas nas biqueiras das quebradas.
Como se não houvesse muito mais a rimar e declamar, as músicas dos Racionais minguaram e nenhum álbum relevante foi lançado em dez anos. No mesmo período, as periferias foram dominadas pelo funk e pelo pancadão, celebrando o consumo e o prazer em excesso proporcionados pelo sexo casual e pelas drogas. Os anseios da geração de jovens das periferias ficaram mais próximos aos dos jovens da classe média paulistana.
O “sistema”, contudo, continuava a produzir camadas sociais que se movimentavam em sentidos opostos, como placas tectônicas na iminência de produzir terremotos. Brown, o cronista, estava atento e conseguiu compreender que era falsa a sensação de paz que a cidade experimentava.