É sério, eu não estou eximindo culpa de ninguém - nem do governo argentino, nem do brasileiro, nem do venezuelano. Mas eu estou DE SACO CHEIO de ser usada pelos donos dos jornais, e por reacionários defensores de uma suposta “liberdade de imprensa”, pra reclamarem de “censura”. A última é do @estadao de hoje, como sempre: Imprensa argentina é perseguida pelo governo, diz relatório.
A Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (Adepa) sustenta que, embora os jornalistas argentinos “formalmente possam dizer o que pensam, quem faz isso fica exposto à represália e à perseguição”. Nos últimos anos associações jornalísticas reclamaram de grampos telefônicos aos jornalistas, redução drástica (ou eliminação completa) da publicidade oficial aos meios de comunicação não alinhados com a presidente Cristina Kirchner, piquetes de sindicatos aliados do governo nas portas das gráficas dos jornais para impedir a saída de exemplares (com a omissão da Polícia), além de blitze sem justificativas da Afip, a Receita Federal argentina. Organizações sociais vinculadas à presidente realizaram “tribunais populares” com simulacros de julgamentos de jornalistas não alinhados com o governo.
Peraí! Jornalista quase nunca pode dizer o que pensa em qualquer democracia - vide as diversas demissões de jornalistas por terem comentado coisas que não agradaram aos chefes no Twitter pessoal. Quem fala o que pensa, e fala bastante, mesmo com as intimidações do governo (senão nem ficaríamos sabendo) são os jornais.
Agora, as intimidações descritas acima como prova de censura na Argentina são foda. Redução na publicidade?! Vcs acusariam a Odebrecht de censura se eles parassem de financiar o jornal com seus anúncios bilionários? (Mas claro, a Odebrecht nunca faria isso porque vcs estão perfeitamente alinhados com os interesses deles - vai perguntar pra qualquer veículo que denuncia as falcatruas das empreiteiras se eles ganham publicidade da Odebrecht.) Ataques de organizações sociais vinculadas ao governo?! E existe alguma organização social que não concorde com os jornais que não seja considerada pelos jornais como vinculada ao governo? No Brasil, eu conheço muitas que são críticas ferrenhas do governo Lula, mas nas raras vezes que aparecem no jornal são apontadas como “vinculadas ao governo” porque concordam com uma ala minoritária do PT que defende a regulação social da mídia - que nunca foi e provavelmente nunca será implementada nesse país (não se preocupem) por causa do forte lobby dos jornais, mesmo com vários pontos sendo previstos na Constituição.
Agora, Estadão, me conte a história do pesado financiamento que o Clarín obteve do governo argentino quando estava quase falindo. O jornal tem problemas fiscais - mas concordo que uma blitz da Receita, mesmo que justificada, seja intimidação. Mas isso não impediu o Clarín de continuar criticando o governo. Assim como grampos telefônicos, que não precisam vir necessariamente de ordens de cima, ou até de dentro do governo. Como vimos na Inglaterra, quem faz o grampo pode até ser mesmo um jornal!
Mas eu concordo com seu último argumento de uma “perseguição” do governo argentino aos jornais, escondido no final do texto:
O governo da presidente Cristina Kirchner está retomando os movimentos no Congresso Nacional para, nos próximos meses, aprovar um projeto de lei elaborado no ano passado que declara que a produção, distribuição e comercialização de papel de jornal seja declarado de “interesse público”.
Viu? Eu não sou cri-cri, aceito uma tese com argumentos. Só me faça o favor e tire meu nome disso. Não é o jornalista que está sendo perseguido, é o jornal. Se vc quer falar do jornalista, entrevista o sindicato, não a associação dos jornais.